
As editoras estão gastando um tempão discutindo sobre DRM (digital rights management) para e-books. Dizem que é uma das armas para combater a pirataria, e estão decididas em fazer com que haja bloqueios sobre os seus livros publicados.
Existem inúmeros debates interessantes sobre se o DRM ajuda ou prejudica as vendas. Sem mencionar o fato de não saber se os bloqueios ainda funcionam da maneira que deveriam (não funcionam).
Para mim, entretanto, a noção interessante é sobre a pirataria dos livros em si.
Quantas pessoas prefeririam um disco rígido com 10 mil músicas a um com 10 mil livros? Nós estamos sedentos por um e quase ignorando a possibilidade do outro. O que você, afinal, faria com 10.000 livros?
Os softwares são pirateados porque em poucos minutos o usuário economiza centenas ou milhares de dólares e se sente tranqüilo com isso, porque eles parecem excessivamente caros para algumas pessoas. Isso é roubo de propriedade intelectual, mas um tanto tentador.
Já a música é pirateada porque muitas pessoas têm um desejo insaciável em ouvi-las, o tempo todo, preferencialmente com uma variedade infinita.
Mas e os livros?
Livros são livres para se ler nas livrarias, mas quase não existe nenhuma interação para fora dali. Os livros são livres para ler em confortáveis sofás nestas livrarias, mas não há várias pessoas sentadas ao lado lendo o dia todo.
Livros levam um grande tempo para ler, requerem um comprometimento do leitor e são relativamente baratos. E a maioria das pessoas não lê por diversão. Ou seja, muitos dos insumos necessários para uma comunidade de pirataria vibrante estão faltando.
Como disse o famoso Tim O’Reilly, livros não possuem problemas de pirataria, eles possuem um problema de obscuridade. Nunca encontrei um autor que não quisesse que cada vez mais pessoas pudessem ler o seu livro. Nenhum. Por outro lado, Peter Gabriel e outras estrelas do rock raramente sentem a mesma coisa. Já escrevi inúmeros e-books grátis para leitura (esse é um deles) e mesmo quando eu queria pirataria ilimitada, isso não aconteceu.
As editoras de livros estão se atrapalhando nos seus esforços de marketing porque elas estão preocupadas com que 1% dos seus títulos seja pirateado. Elas têm pesadelos com crianças lendo nas salas de aula cópias de livros ou com seções inteiras de uma empresa lendo uma única cópia de R$49,00 de um livro de capa dura.
Mas o pensamento pequeno sobre o mercado do livro não é o futuro – é o pensamento aberto. E no mundo do pensamento aberto, superar a obscuridade é o único e maior problema. Se somente a pirataria fosse o problema…
Artigo escrito por Seth Godin e adaptado por Bookess.